domingo, 4 dezembro 2022

Quando o esquerdismo virou âncora do bolsonarismo em Belém

Governar uma prefeitura, sendo de esquerda e no capitalismo, é administrar conflitos entre as demandas legitimas do povo e as possibilidades concretas. E cabe aos movimentos lutarem por seus interesses imediatos, inclusive em governos de esquerda possuem mais estímulos para isso.

Porém, por vezes na história, movimentos foram sequestrados para os interesses conservadores e até golpistas, vide Chile de Allende. E, neste instante, na cidade de Belém, formou-se uma aliança bastante evidente e agressiva entre um pequeno grupo esquerdista (Luta Socialista, corrente interna do PSOL) e base social bolsonarista, blogueiros e apresentadores tucanos e bolsonaristas.

Não se trata do direito de criticar qualquer governo de esquerda, o que é salutar que aconteça pode ser criticado. Não é esse o caso.

Houve o sequestro da justa reivindicação do funcionalismo de receber no vencimento base o valor do salário mínimo (nenhum servidor municipal recebe menos que o mínimo na remuneração, mas parte grande alcança este valor com abonos salariais) e do direito de greve.

Antes de chegar na data base e subscritores de acordo que marcava data para nova rodada de negociação em maio, a direção majoritária da subsede do Sintepp Belém conseguiu aprovar uma greve no inicio de abril, tendo como estratégia motivar demais categorias para antecipar as negociações. Até aqui, mesmo discordando da tática, estava dentro do limite da divergência sindical e da relação com o governo.

Acontece que a greve não teve adesão de mais do que 3% dos servidores não docentes da educação, cerca de 60 a 70 servidores. E dentre os que aderiram é nítida a presença de apoiadores do governo anterior (tucano) e bolsonaristas. E não foi acompanhada por nenhuma outra categoria. Ao invés de recuar, a direção sindical resolveu radicalizar, tentando causar em agendas do prefeito, ocupar prédios públicos, agredir militantes do PSOL e, principalmente, foram construindo uma parceira com notórios blogueiros e apresentadores de programas de direita, que batem na prefeitura todos os dias, são pagos para isso. Pessoas que chamam o prefeito de “ED potoca”, “comunista”, acusam governo de ter “gabinete do ódio” e de organizar uma “milicia cabana”. Até um inexistente dossiê provando tais afirmações foi alardeado, sendo subsidiado todos os programas com generoso espaço midiático para as lideranças sindicais grevistas ou de outras categorias cujos membros eram da corrente interna acima citada.

Na verdade, a parceria se trata de ter espaço para falar do seu movimento e não se incomodar com discurso raivoso contra a esquerda no mesmo programa, calar diante de acusações absurdas e ataques vis. E, direta ou indiretamente, oferecer informações e elementos do funcionamento do governo para produção de vídeos de ataque ao prefeito, aos secretários de governo e a parlamentares do PSOL. Nos vídeos uma mistura de discurso sindical (pague o salário mínimo), com ataques pessoais (exposição de contracheque de personalidades do governo), estilo da direita. Mas também frases chamando a representação do governo na mesa de negociação de fascista (coisa típica de esquerda).

E há também um viés eleitoral nesse sequestro da luta sindical. Quanto mais luta, mais atos, mais mídia, mais projeção tem para uma pretensa candidatura ao governo (de um coletivo que representa uma ínfima parte da militância partidária), que na verdade é uma forma de ter espaço para pretensa candidatura estadual. Tudo construído nos espaços da direita e tolerando e servindo de âncora ao discurso do bolsonarismo.

Não é luta interna. Não é divergência. É uma prática anti-esquerda, de ataque única prefeitura de capital governada pelo PSOL e pela esquerda, é uma prática de desqualificação das lideranças de esquerda. É uma aliança explícita da extrema esquerda com a extrema direta em Belém. Algo inaceitável.

A última foi no dia 18 de maio. Uma assembleia com 53 servidores, sendo 90% por cento composta pelos poucos grevistas da educação, decretaram greve geral no serviço público composto por 18 mil servidores. Uma decisão inócua, mas que garante mais mídia para suas lideranças e espaço nos programas da direita. E tudo isso depois do governo ter antecipado a segunda parcela do acordo que deu a inflação de 2021 para os que ganham menos e com a oferta de dar a inflação de 2020 também este ano.

O partido precisa tomar uma atitude de defesa de suas lideranças e do governo. E acertar as contas com o arrivismo deste grupelho.

Luiz Araújo
Ex-presidente nacional do PSOL

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